sexta-feira, 22 de agosto de 2014

                  Ávida escápula



Gangorras elétricas penduradas aos postes de iluminação pública.

Minha perna pendia ao vento tóxico.
E das cicatrizes atômicas escapavam revoadas de animais sintéticos.
Janelas atônitas praguejavam violetas plúmbeas a desabar em meu leito diagnosticado.

A febre que me impunha o novel delírio tinha o áspero odor da velha barbárie.

Decompunha meu ofício em ossos nauseabundos de anistia placentária...

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A pequena Azaleia



Azaleia costumava deformar o pôr do sol.

Com seu abridor de manhãs rasgava o horizonte a libertar passarinhos.
Antes que o orvalho precipitasse a secar, sorvia-o integralmente em sua memória.
Hoje Azaleia mora na minha. 
É uma menina danada, de riso maroto.
Credencia suas pequenas glórias ficando com sono e recostando em meu ombro esquerdo.
Diz que tem uma amiga mariposa que fica em frenesi batendo as asas quando ela cantarola.
Convencida que seu maior pecado foi rir na contramão, Azaleia dá-me a mão e alucina as estrelas.
Gosta de trocar as vogais das palavras e secreta-me que é difácil viver.
Eu acredito...

terça-feira, 25 de março de 2014

Cicatrizes de alfazema



Há flores que não nascem em jardins.

Protuberam em aperto.
Espocam na junção 
de blocos de concreto.
Luzem em meio ao lixo.
Sinalizam...

Sobrevivem do descuido. 
Brotam do incerto.
Pululam...

Tortas, 
coloridas, 
disformes, 
silenciosas e 
fortuitas...

Em seu fascínio,
iludem as estações 
que fogem de seu 
sombrio encanto. 

Procriam!

Derradeiro solilóquio 
dos enfermos.
Na incredulidade, almam.

Em seu microscópico festim 
licencioso,
trafegam aéreas e indômitas
a perpetuarem-se nos entre, 
acima, 
abaixo,
e no meio do que a rotina 
nos furta...




***"almam" - não sei se existe em dicionários, mas seria o estado de quem resgata sua alma ao se deparar com uma flor. Do meu verbo almar!!!!!!

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Verdade?

Ver da de covarde...dedar, vê?

A cova não arde. Silencia o fogo!

Essa tarde dois urubus sobrevoavam o ninho no alto de um prédio.

Alimentariam suas crias...Despontuais...Presentes!

Difícil saber quantas sonatas nosso violino gorjeará antes de cansar...

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Espelhos do sonho

Essa poesia harmoniza com esse disco: http://www.youtube.com/watch?v=gj1ydd5ovuI
Na noite vejo duas saídas: 
uma que se esconde, 
outra que abriga.

A lua cautelosa,
quieta vigia.

No corpo não 
tem para onde 
fugir...



A cadeira de balanço e o torniquete de vento



A volta é breve.
Nas alvas plumas distingo
um ponto,
que se ofusca diante da 
claridade.

A trajetória é oscilante.
Com os dias,
se torna cansativa e 
hesitante,
ao olhar dominado
pelo arredio tempo 
cansado.

Tempo? 
Em seu prado vagaroso 
ou abstinência frenética.
Atrás, números;
Revés, frente.

Soldados;
Planos sólidos.
Fardos ácidos.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Trator de Vênus



Travar a batalha da ação consigo mesmo.
O momento correto da omissão.
Todo dia lembrar da linha reta, a de hoje, que é a mesma de ontem, e deve não ser esquecida amanhã.
Amarrar os sapatos com um laço bem apertado,
o que aperta nos incomoda e logo todos vão afrouxar.

Descalço, quero o Definitivo.
Todos querem o alvitre do caminho compacto e direto.
A bula da analgesia em seringa de esperança...
Quero encaixar azulejos em meus objetivos,
colocar estantes nas idéias, ladrilhar minha loucura.

Todos gostam de caminhar, e são homens e mulheres.
Todos vão a lugares públicos sorrindo com seus familiares.
Gostaria de sorrir mais, mas só encontro a sanha do que me interdita...
As vezes não consigo zombar das coisas simples como seres, parques, palavras...

Melhor um sorriso sem dente que um semblante velado.
Todos nascemos nus e chorando.

Um Trajeto e o leque do Sr. Austero




Entrou silencioso como se jamais houvesse andado por aquelas bandas.
Deu uma risada como nunca havera dado antes.
Colocou seu chapéu vermelho num ímpeto vigoroso.
O trêmulo engodo de suas conquistas ali se desvanecia.
Pendurou seu perfumado cachecol numa precisão infernalmente perspicaz.
Seu cheiro áspero e azulado franziu a fronte do dilacerado cosmos.
Beijou uma mulher que passava, resplandecente e viril.
Na quitanda degustou suculentas uvas rubras.
Chorou pela cega senhora que ofereceu-lhe recheados sonhos.
Subiu numa frondosa e triste árvore para escrever linhas desviadas.
Pestanejou duas vezes antes de cair num sono tão profundo,
que até hoje não acordou...

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Tiros de festim para um baile delicado



O último grito evocado das entranhas que secam ao sol.
Janela que se abre ao vento que raja em fúria.
Ríspido deserto em que medro minha dor.
Ao alcançe do olho a miragem é esperança.
Gastarás o derradeiro suspiro na crença do novo dia?
Antes da despedida restarão apenas o eco dos aplausos...

sexta-feira, 15 de julho de 2011

                                           Uma cerejeira na esquina



Alguém viu a tolerância?
Dobrou a esquina,
foi lá pra cima.

Alguém viu, a tolerância?
Dois corações amassados
numa caixa de sapato,
laços de nuvem emoldurados
execrados pelo cansaço.
No ímpeto do afago ligeiro
as coisas passam
e não percebemos.

Alguém, viu a tolerância?
Na corriqueira respiração
quebrou o diamante do mendigo
foi vendida no saco de pão
como migalha, verdade e abrigo.

Ah, alguém viu a tolerânia?
Acabou de passar,
como vômito em forma de ânsia.