à minha querida vó,
Cuidado que não se expressa em palavra.
Refúgio que acalenta e conforta.
Cheirinho que traz à memória paz, fome e sossego.
Dos quitutes bronzeados ao forno,
o calor enternecido de mãos sedosas que afagam,
aveludadas pelo tempo que escapa.
Da envergadura arqueada
tem-se a atenção felina
de quem foi moldada
para observar o que esta ao redor.
Do alto do ombro pequeno e caído
surge a dimensão do mais tenro travesseiro
(aroma de leite de rosas!),
tão mágico que é capaz de enxugar lágrimas desavisadas.
Avó é esquecer-se em primazia.
É a arte do tempero único que adoça ao choro.
A pitada de sal que faz o riso rasgar a cara.
O contentamento simples em ouvir a última garfada a arranhar a louça.
Brilho esculpido em rugas de satisfação.
Alma que conduz o balanço do berço pela eternidade.
Olhar amoroso que aprendeu a esconder de nós o pesado fardo.
Quem duvida disso?
Vó...
É mãe ao quadrado!!!!!!!
domingo, 19 de outubro de 2014
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Esmola
Dei uma flor a ele pois era dia de finados.
Dei um adeus como quem se despede.
Dei uma prece barata cheia do que nem cabe.
E um relógio de pulso como brinde ao vento.
Que em caricias gratas me aprisionou no tempo.
Era pouco, hoje findo dissoluto argumento.
Camponesa austera tão peralta entrona pensamento.
Vendi a salvação por um punhado de excremento.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Ávida escápula
Gangorras elétricas penduradas aos postes de iluminação pública.
Minha perna pendia ao vento tóxico.
E das cicatrizes atômicas escapavam revoadas de animais sintéticos.
Janelas atônitas praguejavam violetas plúmbeas a desabar em meu leito diagnosticado.
A febre que me impunha o novel delírio tinha o áspero odor da velha barbárie.
Decompunha meu ofício em ossos nauseabundos de anistia placentária...
quinta-feira, 19 de junho de 2014
A pequena Azaleia
Azaleia costumava deformar o pôr do sol.
Com seu abridor de manhãs rasgava o horizonte a libertar passarinhos.
Antes que o orvalho precipitasse a secar, sorvia-o integralmente em sua memória.
Hoje Azaleia mora na minha.
É uma menina danada, de riso maroto.
Credencia suas pequenas glórias ficando com sono e recostando em meu ombro esquerdo.
Diz que tem uma amiga mariposa que fica em frenesi batendo as asas quando ela cantarola.
Convencida que seu maior pecado foi rir na contramão, Azaleia dá-me a mão e alucina as estrelas.
Gosta de trocar as vogais das palavras e secreta-me que é difácil viver.
Eu acredito...
terça-feira, 25 de março de 2014
Cicatrizes de alfazema
Há flores que não nascem em jardins.
Protuberam em aperto.
Espocam na junção
Protuberam em aperto.
Espocam na junção
de blocos de concreto.
Luzem em meio ao lixo.
Sinalizam...
Sobrevivem do descuido.
Brotam do incerto.
Pululam...
Tortas,
coloridas,
disformes,
silenciosas e
fortuitas...
Em seu fascínio,
iludem as estações
que fogem de seu
Luzem em meio ao lixo.
Sinalizam...
Sobrevivem do descuido.
Brotam do incerto.
Pululam...
Tortas,
coloridas,
disformes,
silenciosas e
fortuitas...
Em seu fascínio,
iludem as estações
que fogem de seu
sombrio encanto.
Procriam!
Derradeiro solilóquio
Procriam!
Derradeiro solilóquio
dos enfermos.
Na incredulidade, almam.
Em seu microscópico festim
Na incredulidade, almam.
Em seu microscópico festim
licencioso,
trafegam aéreas e indômitas
a perpetuarem-se nos entre,
trafegam aéreas e indômitas
a perpetuarem-se nos entre,
acima,
abaixo,
e no meio do que a rotina
abaixo,
e no meio do que a rotina
nos furta...
***"almam" - não sei se existe em dicionários, mas seria o estado de quem resgata sua alma ao se deparar com uma flor. Do meu verbo almar!!!!!!
***"almam" - não sei se existe em dicionários, mas seria o estado de quem resgata sua alma ao se deparar com uma flor. Do meu verbo almar!!!!!!
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Espelhos do sonho
| Essa poesia harmoniza com esse disco: http://www.youtube.com/watch?v=gj1ydd5ovuI |
Na noite vejo duas saídas:
uma que se esconde, outra que abriga.
A lua cautelosa,
quieta vigia.
No corpo não
tem para onde
fugir...
A cadeira de balanço e o torniquete de vento
A volta é breve.
Nas alvas plumas distingo
um ponto,
que se ofusca diante da
que se ofusca diante da
claridade.
A trajetória é oscilante.
Com os dias,
se torna cansativa e
A trajetória é oscilante.
Com os dias,
se torna cansativa e
hesitante,
ao olhar dominado
pelo arredio tempo
ao olhar dominado
pelo arredio tempo
cansado.
Tempo?
Em seu prado vagaroso
ou abstinência frenética.
Atrás, números;
Revés, frente.
Soldados;
Planos sólidos.
Fardos ácidos.
Tempo?
Em seu prado vagaroso
ou abstinência frenética.
Atrás, números;
Revés, frente.
Soldados;
Planos sólidos.
Fardos ácidos.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Trator de Vênus
Travar a batalha da ação consigo mesmo.
O momento correto da omissão.
Todo dia lembrar da linha reta, a de hoje, que é a mesma de ontem, e deve não ser esquecida amanhã.
Amarrar os sapatos com um laço bem apertado,
o que aperta nos incomoda e logo todos vão afrouxar.
Descalço, quero o Definitivo.
Todos querem o alvitre do caminho compacto e direto.
A bula da analgesia em seringa de esperança...
Quero encaixar azulejos em meus objetivos,
colocar estantes nas idéias, ladrilhar minha loucura.
Todos gostam de caminhar, e são homens e mulheres.
Todos vão a lugares públicos sorrindo com seus familiares.
Gostaria de sorrir mais, mas só encontro a sanha do que me interdita...
As vezes não consigo zombar das coisas simples como seres, parques, palavras...
Melhor um sorriso sem dente que um semblante velado.
Todos nascemos nus e chorando.
Um Trajeto e o leque do Sr. Austero
Entrou silencioso como se jamais houvesse andado por aquelas bandas.
Deu uma risada como nunca havera dado antes.
Colocou seu chapéu vermelho num ímpeto vigoroso.
O trêmulo engodo de suas conquistas ali se desvanecia.
Pendurou seu perfumado cachecol numa precisão infernalmente perspicaz.
Seu cheiro áspero e azulado franziu a fronte do dilacerado cosmos.
Beijou uma mulher que passava, resplandecente e viril.
Na quitanda degustou suculentas uvas rubras.
Chorou pela cega senhora que ofereceu-lhe recheados sonhos.
Subiu numa frondosa e triste árvore para escrever linhas desviadas.
Pestanejou duas vezes antes de cair num sono tão profundo,
que até hoje não acordou...
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